Sou espinhuda, não tem jeito.

Acho que ninguém que me conheça de perto me descreveria como frágil. Não demonstro muito minhas fraquezas, meus sentimentos tristes e detesto quando penso que outros podem sentir peninha de mim. É claro que fico triste e decepcionada, mas mantenho a cara de má. Por isso, os mais próximos, mesmo notando que estou arrasada, não conseguem se achegar para me oferecer consolo. Sou espinhuda demais pra isso.
Meus espinhos foram crescendo e se tornando afiados a medida que ia me tornando adulta. Mas, ainda criança, já espetava os que estavam à minha volta. E não é culpa dos meus pais, longe disso, eles foram carinhosos como todo pai e mãe costumam ser, sem muita melação, mas carinhosos. Eles tentavam me consolar das minhas decepções; eles foram as primeiras vítimas.
E outro dia me lembrei de um episódio desses, um momento em que precisei ser consolada. Ainda não tinha meus espinhos.
Eu era bem pequena, talvez uns seis ou sete anos, e tinha uma amiguinha de colégio muito achegada, daquelas de sentar junto na sala de aula, andar junto no recreio, essas coisas. Um belo dia, não sei porque, a tal menina parou de falar comigo. Juro, gente, que foi do nada. A garotinha, como só garotinhas nessa idade sabem fazer, simplesmente passou a me ignorar como se eu fosse invisível.
É claro que fiquei arrasada. Não conseguia compreender. Quando cheguei em casa, chorei muito.
Aí, veio minha mãe. Perguntou o que eu tinha. E eu contei. Puxa… minha mãe ficou mesmo comovida. Me sentou no colo dela e começou a falar de forma consoladora, aquela coisa toda que se fala para uma menininha da 1ª série que acabou de perceber o quanto outro ser humano pode ser cruel. Engraçado como me lembro disso… tem uns 30 anos, né não? Mas, eu me lembro.
Só que aquele colo, as palavras macias, todo aquele carinho começou a me incomodar mais do que o desprezo da minha ex-amiguinha. Caraca… comecei a me sentir mal naquela posição de fragilidade, precisando de afagos e atenção. Coisa horrível, eu me lembro da sensação ruim, me lembro de pensar que estava em uma posição ridícula e que não queria nunca mais aquilo pra mim. Já eram os espinhos nascendo.
Parei de chorar. Minha mãe perguntou se eu já estava melhor e eu disse que sim. E, nesse ponto, tudo se apaga da mente. Ficou só a impressão que expôr fragilidade é ruim, é vexaminoso.
Lembro também que me prometi nunca mais ficar triste por conta do desprezo alheio. Acho que associei a situação toda com o desprezo da menina, sei lá, mas não quero me deixar abater mais quando os outros passam a não me enxergar de uma hora pra outra. Não quero sofrer por conta disso.
Mas, a verdade é que sofro. Então, pra resolver esse impasse, eu mesma me consolo. Sou boa em encontrar palavras de encorajamento pra mim mesma. Sou ótima em justificar as atitudes alheias e me convencer que, talvez, seja só uma desatenção momentânea, nada pessoal.
E, quando nada disso funciona, quando tudo leva a crer que estou inconsolável e não reajo às minhas próprias palavras de afeto, me dou um broncão. Sim! Digo a mim mesma que é impensável me deixar cair por causa de uma coisa que, no fim, nem deve valer a pena, que eu devo me lembrar que não tenho tempo para auto-comiseração, que existem pessoas que dependem de mim, do meu trabalho, da minha saúde mental e que não vai ser agora que eu poderia desmontar. E, se resisto, vou logo mandando um “vai ficar de frescura, hein, hein?!?”
Até que tem dado certo. Tudo bem, tudo bem… não tentem fazer isso em casa sem um adulto por perto.
Published in: on 27 maio - 2006 at 6:10 pm  Deixe um comentário  

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