Dor

Ontem foi um dia trabalhoso, pesado. Questões vitais se apresentaram pra mim bem cedo no dia. Aí, por volta das 10h, fui à faculdade só pra me irritar e ter certeza que pago algumas matérias em vão, puro dinheiro jogado fora. E, o pior, são matérias importantes. Mas isso não tem solução.

Daí, mais ou menos no meio da tarde, minha cabeça começou a doer muitíssimo. Quer dizer, a cabeça começou a doer logo na parte da manhã, mas piorou muito durante a tarde. Coincidentemente, estávamos no meio de uma audiência de um processo de homicídio. O “réu”: um menino de 15 anos, com cara de crente. Semblante de quem está apavorado. A mãe, mais apavorada ainda. Ai… dá um aperto no coração, logo espantado dali porque é totalmente inapropriado naquela hora. Então, o aperto se transfere pra cabeça. E ela lateja…

Imediatamente após, vem uma audiência de peruazinhas que se pegaram no colégio. Descrição de como as penas voaram pra todos os lados, futilidade, desrespeito ao próximo, desrespeito pelas autoridades escolares… e o malfadado Poder Judiciário perdendo 50 minutos do seu dia com essa palhaçada. Meu Deus, a cabeça vai estourar, vai miolo pra tudo que é lado, cês vão ver!

O expediente acaba, não sem antes eu ter que presenciar uma fedelha, que compareceu ao fórum quase nua e que tem o nome do namorado bandido tatuado nas costas, ameaçar a própria mãe com uns tapas na cara. E aquela mãe chora. E nessa hora meu cérebro estala, porque eu mesma já teria enfiado uma bifa no meio dos córneos da guria. Vamos embora pra casa, porque meu dia ainda está longe de terminar.

Na estrada, chuva. Muita chuva. Tudo perigoso, muito perigoso. A massa cinzenta tem o dobro do seu tamanho normal, inchada, mas o crânio, não é possível, deve ter diminuído.

Mais faculdade. Só que desta vez, vale a pena. A cabeça, a estas alturas, rodopia no seu próprio eixo de dor, mas estou feliz por escutar alguém falar com tanta propriedade sobre um tema que eu amo. Como a inteligência é algo atraente, rapá! A assistência hipnotizada, ninguém demonstra cansaço, é impressionante. Um assunto tão complexo sendo explicado de uma maneira que até os calouros têm condição de entender. Quando eu crescer, quero ser assim.

Agora sim, chegar em casa. Ah, não… mas assim direto não. Primeiro uma cervejinha com o primogênito no botequim da esquina, porque ninguém é de ferro. Só nós dois no meio de alguns pingunços que assistiam a novela das oito. Engraçado isso. Dois adultos, né? Mas lembro – sinto até – quando ele abraçava meus joelhos, pedindo colo. Era menos complexo naquela época, só as costas doíam, a cabeça não.

E hoje? Hoje são as lágrimas que não puderam rolar livremente ontem. Talvez alivie a cabeça. Quem sabe a dor não era do choro contido, da necessidade de parecer forte e confiante? Olha gente. Sou forte mesmo! Sou confiante! Desde que, de vez em quando, possa ficar sozinha, com chance de descansar dessa pose de super-mulher.

Published in: on 18 outubro - 2006 at 8:41 am  Deixe um comentário  

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