Tenho vergonha

Já presenciou um papinho entre pessoas auto-justas? Cada uma delas querendo mostrar o quanto são piedosas/boas/honestas/moralistas/higiênicas, ou qualquer outro adjetivo virtuoso que se queira enfiar aqui (ui! “enfiar” não é uma palavra boa pra esse povo!)… gente, isso me mata de vergonha.

E uma conversa entre pessoas que querem emagrecer? Ah, todo mundo tem uma dieta infalível, um método perfeito, um jeito especial de tirar o miolo do pão e de escorrer o óleo do pastel e de usar o leite condensado mais parcimoniosamente… isso também me deixa com vergonha.

Também tem o papinho daqueles que têm sempre a última novidade sobre a vida alheia. Rapidamente passam da separação de fulana pro namoro de sicrana, partindo pra reconciliação de beltrana com o marido canalha, seguido de quem colocou chifre em quem… ai, ai… vergonha, vergonha.

E todo mundo tem fórmulas, não é? Todo mundo tem soluções. Todo mundo sabe como agir e não titubeia. Incrível!

Sei lá… melhor ficar calada mesmo.

Published in: on 3 dezembro - 2008 at 9:16 am  Comments (5)  

Mukhtar Mai

Mukhtar Mai foi desonrada. E de uma forma que é praticamente inimaginável para minha cabecinha de cristã ocidental. Mas, infelizmente, a desonra pela qual Mukhtar Mai passou é bem comum para mulheres de sua etnia: o estupro coletivo.

Pois é… a corte de uma tribo no Paquistão condenou essa mulher, na época com cerca de 28 anos (a idade é presumida, pois não se mantém registros de nascimento nessa localidade), a ser estuprada por quatro homens por um “crime” cometido por seu irmão de 12 anos. O menino, segundo relatos desencontrados e sem consistência, teria sido visto conversando com uma mulher pertencente a uma casta superior. A “pena” foi aplicada na mesma hora, diante dos familiares de Mukhtar Mai.

Até então, a maioria das mulheres que passaram por esse tipo de abuso escolheu o suicídio como maneira de aplacar seu sofrimento. Mukhtar também pensou em se matar, mas foi impedida pela mãe e por seus outros parentes. Passado o desespero do primeiro momento, Mukhtar buscou a justiça do seu país a fim de que seus estupradores fossem punidos. Ela foi bem sucedida, o que fez com que seu caso se tornasse exemplar.

O relato do livro parece um desfile de absurdos, começando pela descrição do que seria um crime para os homens paquistaneses até chegar à condenação em si. Lendo o depoimento de Mukhtar, ficamos sabendo que a motivação dos abusadores foi muito mais política do que qualquer coisa: reafirmação do poder tribal, truculência de uma casta que se julga superior à outra etc, etc. Mas, ainda assim, é chocante demais ler sobre a triste experiência dessa mulher. Principalmente se considerarmos que, no mesmo ano que Mukhtar foi estuprada, outros 804 casos de estupro coletivos foram registrados no Paquistão.

Entretanto, mesmo sofrendo tão cruel condenação, Mukhtar foi forte o suficiente para denunciar seus estupradores. E o que salta aos olhos é que, se ela conseguiu isso, foi porque teve apoio de sua família e de amigos. Também observadores internacionais apoiaram sua causa, o que forçou o governo do Paquistão a cuidar desse caso com atenção especial. Mukhtar transformou sua tragédia em benção: ela usou o dinheiro que recebeu de indenização, bem como contribuições de organismos internacionais atentos ao caso, para construir uma escola voltada para a educação de meninas na localidade onde mora.

Ler esse livro, em um primeiro momento, pode nos deixar desanimados com o ser humano. Mas, com uma leitura um pouco mais cuidadosa, percebemos que, por incrível que pareça, o bem realmente vence o mal. A pessoa, ainda que humilhada de maneira indizível, tem condições de transformar todo seu sofrimento em aprendizado e crescimento. É emocionante e inspirador observar uma frágil mulher – pobre, analfabeta e humilde – vencer um sistema maligno. Quem bom seria se todos tivéssemos essa força extraordinária.

Published in: on 3 maio - 2008 at 1:49 am  Comments (6)