Nhé…

E depois de quatro meses, nos quais vocês se falaram diariamente e se encontraram pelo menos duas vezes por semana, ele some. Sim, some por seis dias. Tá… ele não está completamente sumido há seis dias, sejamos justas, porque antes de anteontem ele te deu um ‘oizinho’ meio sem graça no MSN e ontem ele te mandou um email. Mas você estava muito puta pra responder direito. Você foi fria na primeira investida, sarcástica na segunda e, oh, glória!, se congratulou por isto.

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Há seis dias ele te escreveu explicando que estava muito mal – “estou uma mala”, foi esta a expressão – e te pediu um tempo pra melhorar. Você respondeu com um ‘tudo bem, qualquer coisa me liga’.

Mas ele não ligou.

Ele não ligou… e você ficou com raiva. A raiva vem antes de tudo. A raiva fez você prometer que não vai ligar pra ele. E tem seis dias que você cumpre a promessa, mas a que custo, hein! Porque a raiva foi logo embora e veio a saudade pra tomar conta de você.

Ai, a saudade… ela está sempre justificando as ações dele, não é? E, quando a saudade finalmente convence você a pegar o telefone e mandar às favas qualquer promessa, volta a raiva pra lembrar que você tem que ter orgulho, amor próprio. E a raiva é braba, bota a saudade pra correr aos gritos de que somos mesmo umas molóides, umas bestas, umas coração-de-manteiga.

Só que a raiva também é muito ocupada. Ela não pode ficar aqui do teu lado o tempo todo, pois tem outras coisas pra fazer, outras pessoas pra envenenar e, de novo, vai embora. Ahá! Era isso que a saudade queria! A saudade fica ali, de tocaia, só esperando a raiva dar as costas. Daí, no mesmo segundo, a saudade começa sua cantilena: “ele disse que não estava bem”, “orgulho não vale a pena”, “mas você está sofrendo, de que adianta?”… e por aí vai. Ai, cacete!

Estaria bom se a briga fosse só entre a raiva e a saudade. Mas você não pode se esquecer da tristeza. A tristeza está aí, firme e forte, desde o momento em que você leu aquela bosta de email, aquele de seis dias atrás, pela primeira vez. Sim, sim, primeira vez, porque a gente sabe que você leu aquele email váááárias vezes, não foi? O email dele e a resposta que você deu. É… a gente sabe… pra que mentir agora? Você leu até decorar, a gente sabe. Você tem repetido de cor o que dizia o email dele e a resposta que você deu pra qualquer amiga que te pergunte – pras que não te perguntam também, reconheçamos – há seis dias. Tem seis dias que você só fala disso. “Monotemática”, eis teu nome do meio!

Você quer se livrar da tristeza. Mas a bicha é renitente. Ela não é frouxa como a saudade que, a qualquer gritinho da raiva, sai correndo. A tristeza fica ali, olhando pra raiva e pra saudade, tão patéticas. E olhando pra você. A tristeza vai contigo pro banho e faz você confundir água de chuveiro com lágrima. A tristeza deita contigo e mexe no seu cabelo até você pegar no sono, dizendo pra você se acostumar com a idéia de que, de  verdade, ele viu que você não vale a pena. A tristeza te faz escrever alguns emails que você não vai mandar, porque, afinal, tem o raio da promessa que você fez pra raiva blábláblá… não vamos falar disso de novo, por favor.

Bom… a quem você vai ouvir? À raiva, à saudade, à tristeza? Você não sabe. Você está confusa. Confusa…

Pra piorar tudo, mais uma voz começa a dar seus pitacos, a princípio de forma tímida, mas agora de maneira mais forte e audaciosa do que todas as outras. É a voz do seu desejo. Seu desejo. Tão impaciente, tão imediatista, tão mimado. Quer tudo pra ontem. Melhor, quer tudo pra seis dias atrás! Ah, desejo… não faz isso, não… é muita sacanagem…

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Published in: on 15 janeiro - 2009 at 6:51 am  Comments (9)  

Tá na coisa ou na pessoa?

Onde fica a origem da tristeza? Nas coisas, nas situações? Dentro de cada um de nós?

Um amigo meu – bem bonito, por sinal – conta que, quando ele tinha uns 30 anos, estava bem empregado, ganhava bem, tinha carrão e quantas mulheres desejasse. Mas vivia melancólico e desanimado. Certo dia, ele caminhava do estacionamento onde tinha parado o carro até seu escritório, triste e arrasado. Daí, por trás de si, ele ouviu alguém cantando animadamente uma música do Roberto Carlos: “eu volteeeeiiii, voltei para ficaaaarrr… porque aquiiiii, aqui é meu lugaaaarrr”. Quando ele olhou para trás, viu que o autor da cantoria era um velho clunâmbulo* e com aparência bem pobre.

O carinha, ou a patricinha, que tem tudo que o dinheiro pode comprar, além de beleza, juventude e saúde, mas é infeliz, em contraste com alguém desprovido de todas essas vantagens, mas que tem felicidade – isso é tão clichê e, ainda assim, não se cansam de fazer livros e filmes com este tema. Sem contar o fato de que todos nós conhecemos alguém que preenche um desses perfis. O mundo tá cheio deles, principalmente os do primeiro tipo.

E quando a tristeza acaba? É estranho, mas a tristeza acaba também. Aquele meu amigo do início do post percebeu que, no momento em que ele viu o velho cantando de forma tão animada, a tristeza dele acabou. Ele conta que nem acreditou, achou que estava sendo fácil demais, e ficou por dias procurando a tristeza dentro dele. Mas ela não estava mais lá. Ele não conseguia mais se sentir desanimado, pra baixo. A expressão que ele usa é “parece que se desligou o botão da tristeza”.

Esses dias, estava eu conversando com uma colega de trabalho. Ela me contava, bem desanimada, que o sujeito com quem ela estava saindo tinha lhe dado um fora. O famoso pé na bunda. Eles não tinham exatamente um relacionamento, mas já tinham “ficado” algumas vezes. E ela estava muito triste, se sentindo rejeitada, feia, velha, bláblábláblá…

Eu só ouvia. Numa hora dessas, a gente não tem muito o que dizer, a não ser balançar a cabeça e emitir alguns sons guturais que soem consoladores. Mas, à medida que falava, ela mesma foi encontrando motivos pra se reanimar. Foi lembrando que tudo começou entre ela e o tal cara por iniciativa dele. Ele a procurava, ele buscava situações pra que ficassem juntos.

Percebeu que era sim uma mulher atraente aos olhos do sujeito. E, se ele não queria mais, paciência; ela lamentava, mas não tinha porque se culpar. Pelo menos o moço não simplesmente sumiu, pois teve a consideração de ser sincero com ela. E outra: ele pulou fora antes que ela se apaixonasse, o que também era uma grande coisa. Tudo isso foi saindo durante a nossa conversa. Palavras dela, eu realmente não precisei dizer nada.

No dia seguinte, ela me procurou pra dizer que nosso papo tinha sido ótimo, que ela não estava mais triste, que adorava conversar comigo. A situação continuava a mesma, mas parece que minha colega achou dentro dela o “botão da tristeza” e o desligou.

É claro que estou falando da tristeza normal, daquela melancolia que, vez por outra, nos acomete por causa de alguma frustração. Não é de depressão. Depressão é coisa bem diferente. Depressão é doença, possui diversos graus e precisa de tratamento médico. Não estou querendo raciocinar de forma rasa. Apenas digo que, em nossas tristezas e melancolias do dia-a-dia, a maneira da gente encarar o problema é, na maioria das vezes, o ponto-chave. Parece mesmo que a origem da tristeza tá na gente.

*Não me digam que não sabem o que é um clunâmbulo; clunâmbulo é aquele sujeito que, por não ter as duas pernas, se locomove arrastando o corpo com as mãos…

Published in: on 30 abril - 2008 at 9:40 am  Comments (8)